segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um vira-lata na Casa Branca







Jadson Oliveira

A grande mídia se fartou num derramar de glamour nas telas da TV. O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, ao conceder entrevista coletiva após a grande vitória, anunciou que “a prioridade” é adotar um cachorrinho que será levado por suas filhas para a nova residência da família, a Casa Branca. Um vira-lata like me (como eu).

Vi e ouvi na TV Globo, aqui em Manaus (me lembrei, meio deprimido, que para se livrar da Globo o cara tem que sair do Brasil), naquela majestosa cobertura das eleições nos States, com uma equipe requintada que incluia o editor-chefe e apresentador William Bonner.

Um espetáculo, um grande e caro espetáculo, mas certamente o investimento vale a pena. Claro que o presidente eleito falou de outras coisas mais importantes, como a adoção de medidas para reerguer a classe média (e classe média lá não é quem tem renda familiar entre 1.000 e 4.500 reais, como em nosso Brasil). A exemplo de criação de empregos e redução de impostos.

Mas a cobertura da Globo, no padrão global, ou seja, internacional (?), destacou que Obama disse que “a prioridade” é o cachorrinho vira-lata. E o repórter, naquele jeitão roliudiano, fala isso com deleite, sem qualquer traço de ironia ou sarcasmo.

E têm mais banalidades, pois o show não pode parar.

Uma eleitora de 106 anos, que mereceu uma referência pública de Obama, foi elevada à categoria de celebridade.

A esposa de Obama faz questão de se exibir junto ao marido com vestido de 30 dólares.
E o modelito vestido por uma de suas filhas faz tanto sucesso que as lojas do país estão administrando filas de futuras clientes.
E tome espetáculo!

E olhe que há pepinos homéricos esperando o novo presidente, em tese o chefe do império estadunidense, o qual, segundo matraca todo dia a mesma “mídia gorda”, transformou-se no grande símbolo da mudança, da esperança, da liberdade e da democracia.

Fora a bancarrota dos especuladores de Wall Street, podemos lembrar a desigualdade social e o racismo em seu próprio país, a invasão e resistência do Iraque e Afeganistão, o avanço do processo de integração soberana na América do Sul e Caribe que Bush tentou e não conseguiu frear...

Querem mais?

O velho e valente Saramago fez um pedido a Obama. Simples, objetivo e óbvio para quem fala em mudança, esperança, liberdade e democracia (vale repetir, são quatro substantivos fortes): que ele feche a base militar de Guantánamo, mantida pelo governo dos Estados Unidos em território cubano, e acabe o bloqueio econômico a Cuba, que já dura quase 50 anos e anualmente é condenado, quase por unanimidade, pela ONU. E peça desculpas ao povo cubano.

E que não se olvide, agora digo eu. Em Guantánamo e naquela prisão lá do Iraque (Abu Ghraib) estão os detidos depois do 11 de setembro das torres gêmeas, acusados de terrorismo, os quais são torturados a mando das autoridades norte-americanas, com base em lei assinada por Bush.

Pela primeira vez na história a tortura foi legalizada nos Estados Unidos (para efeito de comparação: durante a ditadura militar brasileira, a tortura corria solta, mas era praticada ilegalmente, mesmo de acordo com a legislação ditatorial).


(Só pra quebrar um pouco o clima, pois dizem, os que me conhecem só pelo texto, que sou muito sério. É sobre essa coisa de criticar a Globo. José Trajano, da área esportiva, muito ligado a Juca Kfouri, comentou numa entrevista a Caros Amigos que os jornalistas passam a noite nos bares, enchendo a cara e falando mal da TV Globo. Pela manhã, um “sortudo” recebe por telefone o convite para trabalhar lá. Esquece todo o papo da noite anterior e corre pressuroso para abraçar a sorte grande).

13 comentários:

Rodrigo Carreiro disse...

Eu penso em escrever algo sobre o assunto, mas o post é sensacional. Não há nada mais a dizer. Perfeito.

Anônimo disse...

O tema da materia é dubio não ha de estranhar que a globo desse destaque a abordagem do tema. quanto aso comentários todos pertinentes.

Ernandes Santos disse...

Acho que depois deste belo texto, você será o próximo sortudo. Correspondente da Globo, direto de Manaus.

Mônica disse...

Muito bem lembrado, Ernandes. Jadson correndo para não perder a sorte grande de uma vaguinha na Globo seria hilário. Uma pena, pois é justamente de textos como os dele e, principalmente, de visão crítica que a Globo precisa.
Quanto ao texto, maravilhoso. O pedido de Saramago é o de todos nós, assino em baixo. bjs

Jadson disse...

Hilário mesmo, Mônica. Correndo atrás da sorte grande, buscar “meu lugar no futuro”, é assim que diz a música? Ah! A Globo!... Obrigado pelos comentários, pelas brincadeiras, companheiros.
Uma observação. Acho uma sacanagem a maneira como nos referimos à tortura durante a ditadura militar, como eu próprio fiz. É que fica sempre parecendo que ela não é mais praticada no nosso país. Tortura nunca mais, nome do movimento e do livro onde estão documentados os casos do período ditatorial, já passa esta idéia. Sabemos, porém, que não é verdade, infelizmente. É que temos dificuldade de perceber o que não está a nossa volta, temos a tendência de ver o mundo em torno de nosso umbigo. A tortura continua correndo solta nas delegacias de polícia do Brasil. Só que os torturados hoje não somos nós, classe média, estudantes, universitários, profissionais liberais. São pobres, pretos, da periferia, analfabetos ou semi. Mas estes não contam, são os excluídos. Tortura nunca mais?!!!
Na linha do nosso Mídia Baiana, li hoje na Carta Capital desta semana “O jornalismo caubói” (pag. 67), falando da cobertura da Fox News na noite da vitória de Obama, com cenas explícitas de desolação, “âncoras chorosos, repórteres inconsoláveis, comentaristas engasgados de dor”. No final há uma pequena referência à Globo.

Jadson disse...

Hilário mesmo, Mônica. Correndo atrás da sorte grande, buscar “meu lugar no futuro”, é assim que diz a música? Ah! A Globo!... Obrigado pelos comentários, pelas brincadeiras, companheiros.
Uma observação. Acho uma sacanagem a maneira como nos referimos à tortura durante a ditadura militar, como eu próprio fiz. É que fica sempre parecendo que ela não é mais praticada no nosso país. Tortura nunca mais, nome do movimento e do livro onde estão documentados os casos do período ditatorial, já passa esta idéia. Sabemos, porém, que não é verdade, infelizmente. É que temos dificuldade de perceber o que não está a nossa volta, temos a tendência de ver o mundo em torno de nosso umbigo. A tortura continua correndo solta nas delegacias de polícia do Brasil. Só que os torturados hoje não somos nós, classe média, estudantes, universitários, profissionais liberais. São pobres, pretos, da periferia, analfabetos ou semi. Mas estes não contam, são os excluídos. Tortura nunca mais?!!!
Na linha do nosso Mídia Baiana, li hoje na Carta Capital desta semana “O jornalismo caubói” (pag. 67), falando da cobertura da Fox News na noite da vitória de Obama, com cenas explícitas de desolação, “âncoras chorosos, repórteres inconsoláveis, comentaristas engasgados de dor”. No final há uma pequena referência à Globo.

Ciência e Literatura de outro mundo disse...

Ontem dizia aos meus alunos de Publicidade: "Somos consumidores de conteúdos, acima de tudo. E se você não consome os conteúdos da moda, está fora do mercado." A lógica do espetáculo no jornalismo da grande mídia faz sentido por isso, porque é um produto, um conteúdo a ser vendido para nosso consumo.
Por herança ideológica de meu pai, este autor, isso me parece errado, já que o jornalismo deveria ser informativo e não ser um entretenimento para a hora das refeições.
Detesto quando um âncora vira pro outro e faz um comentário besta, como se quisesse ser familiar. Mas esse é o espetáculo, será isso que o povo quer? Eu, não!
Fabiano

Ivan disse...

O texto é maravilhoso. Quem não assinstiu a cobertura consegue visualizar as cenas, sem dificuldade alguma. Imagino quanto o presidente eleito dos EUA deve ter reagido a tudo isso. Pelo que pude ver de Obama, ele não faz a "linha coluna social".

Jadson disse...

"Consumidor de conteúdos", gostei muito, professor. Acho que faz sentido com o que digo sempre; trata-se de uma opção política e ideológica, deliberada, bem planejada e bem executada. Certo?

joana disse...

Grande Jadson! Sempre se superando! Belo texto mesmo companheiro. Assim eu tenho que concordar com Mônica de que desse jeito você acaba sendo próximo "sortudo" (hehehehehe). Já estou aguardando ansiosa a sua próxima contribuição. Joana.

joana disse...

Grande Jadson! Sempre se superando! Belo texto mesmo companheiro. Assim eu tenho que concordar com Mônica de que desse jeito você acaba sendo o próximo "sortudo" (hehehehehe). Já estou aguardando ansiosa a sua próxima contribuição. Joana.

Crisóstomo disse...

Meu querido amigo Jadson,
Recebi a mensagem, fui olhar a matéria, que grande jornalista 'casual' taí mesmo. Gostei, claro. Estilo blog, eu gostaria de aprender. Agora, achei um pouco amarga, "frankfurtiana" (risos). Um tanto 'racionalista'. Não vamos conceder um pouco à emoção, à fantasia, ao simbolismo, à viagem mais linght?

Maria Rubia disse...

,Sempre achei que tudo de ruim que acontece no Brasil, tem o dedo podre da rede globo. Eu comparo a globo com o pior tipo de cancer que existe. Beijos. Cuidado com a malária.