terça-feira, 2 de setembro de 2008

O novo Correio e a Opus Dei

José Bomfim

De vez em quando surgem mudanças na imprensa baiana, normalmente patrocinada pelos provincianos empresários da comunicação que vão buscar gênios em outras praças.


Eles se impressionam com os geniais jornalistas, desembolsam milhões e, anos depois, repetem a fórmula e fazem tudo de novo, só que com os da casa. A Tarde foi a penúltima e agora é a vez da Rede Bahia que, como gostam de dizer, está sendo repaginada.


Nas bancas, o novo Correio, em menor tamanho e sem o sobrenome tem sido motivos de comentários. Na estréia, o fato de ter diminuído de altura e largura não compensou, porque parecia uma bíblia tal o volume.


Ficamos todos torcendo para que os que, de quando em vez, bradam que o lead acabou escolham fórmulas menos tortuosas para os leitores. Para que escrever o mesmo texto duas vezes – um resumido, que compõe o caderno 24 horas – e o outro completo? Basta deixar o lead vivo, não é?

Reduzir o tamanho do jornal não necessariamente significa que se deva desprezar o modelo de seções. Quando se junta várias antigas seções em uma só, cria - talvez momentaneamente - uma confusão sem tamanho. Ficar procurando os assuntos, com certa dificuldade, tira o ganho proposto para a redução do jornal.


Mas o que mais me intriga é o fato deste ser mais um produto com o carimbo da Universidade de Navarra. Para quem não sabe, uma universidade privada fundada em Pamplona, (Navarra), na Espanha) em 1952 por Josemaría Escrivá de Balaguer. A Universidade é uma obra de apostolado corporativo do Opus Dei, uma Prelazia pessoal da Igreja Católica que tem como fim promover a busca da santidade através do trabalho profissional e das realidades correntes da vida. De acordo com a Wikipédia.


No final dos anos 90 jornalistas brasileiros, espanhóis e outros com especialização em Navarra passaram a fazer consultorias e reformas em jornais do Brasil e de outros países. Na Bahia, A Tarde e o Correio aumentaram a lista dos devotos de São Josemaría.

Sei que muita gente só ouviu falar da Opus Dei quando leu o best seller O Código da Vinci, mas trata-se, sem dúvida, da verdadeira extrema-direita política do continente, consultora até dos falcões norte-americanos.

Tudo bem, que seja, há espaço para tudo no mosaico democrático, mas me intriga que a organização tenha descoberto essa mina no jornalismo. Qual será mesmo o objetivo?


O Di Franco, que sempre escreve – escrevia desde antes da reforma do jornal dos Simões - na página de opinião de A Tarde não esconde que é integrante desta organização ultra-católica.

José Bomfim -Jornalista/ Reg. 1023 DRT-Ba

7 comentários:

Cleidiana disse...

Caro José Bonfim:
Além do tema extremamente pertinente, fico contente de ter a oportunidade de voltar a ler o seu texto seguro e ágil em um ambiente público. Ganha o bom jornalismo e parabéns pela iniciativa dos colegas. Abraços, Cleidiana.

mendes junior disse...

Brown,

Boas notícias do jornalismo da terra baiana. Alguém tem que abrir o olho: a Opus Dei não está jogando de graça. O conservadorismo da mídia é algo orquestrado, com ideologia e operadores escolhidos a dedo.

Um grande abraço e parabéns a todos: Moniquinha, Joana, Carmela e Borega.

Nestor Mendes Jr.

Mônica disse...

Bem lembrado, Bomfim. A Opus Dei é realmente o que há de mais retrógrado e uma ameaça a qualquer tipo de avanço da democracia. Por isso mesmo precisamos ter espaços nossos para discutir essas e outras preocupações da nossa profissão. Até o velho Nestorgênio deu as caras, lá de Angola...Beleza Brown

Mônica disse...

Só acrescentando, concordo em gênero, número e grau com Bomfim quando diz que a repetição das matérias é um recurso dispensável, que só aumenta o tamanho do jornal e torna mais confusa a leitura - o lead existe para isso e avivá-lo resolve o problema de quem só quer uma rapidinha (êpa!).
Como disse na resposta a Suely, também prefiro os cadernos separados, com as editorias bem definidas.
E senti falta, também, da coluna política. Ou, pelo menos, de uma coluna de notas com toque de humor. Padrões que podem ser vistos como antigos, mas que nada impede que sejam modernizados, pois sempre fizeram sucesso em todos os jornais. Mas, como ter experiência virou sinônimo de ter "vícios" dos modelos ultrapassados (ouvi isso em uma reunião da nova direção com a redação, louvando a presença de estagiários sem vícios), faço como a Copélia de Arlete Sales: prefiro não comentar.

Suely Temporal disse...

Quanta gente boa!!!!
Estou muito feliz em estar perto de vocês, ao menos pela internet!
Sobre o novo Correio, queria fazer que nem Moniquinha imitando o personagem Copélia da televisão, mas fui desafiada!
Vamos lá, então! Concordo com o texto preciso e precioso do meu amigo Bomfa. Grande jornalista! E eu, que não chego nem perto da sua estatura tenho a dizer que sou uma jornalista traumatizada. Nos últimos 20 anos trabalhei em dois jornais que fecharam na Bahia: o Jornal da Bahia e o Bahia Hoje.
Na forma gostei do novo Correio, mas quanto ao conteúdo, ele ainda precisa encontrar o seu caminho. Mas acredito que este não seja o problema exclusivo do Correio. Penso que o veículo jornal ainda não encontrou o seu caminho nessa nova era da cybercultura. E o novo Correio é uma prova disso. Ficou muito bonito, sem dúvida. O tamanho também é mais prático. Mas eu ainda não me acostumei a essa coisa de jornal sem editorias definidas... O pessoal da reforma de lá me disse que o novo formato tem o objetivo de para atingir um publico mais jovem... Que não tem o hábito de ler jornal. Mas será que esse pessoal quer ler jornal? Será que o novo Correio oferece eles já têm muito melhor e há mais tempo nos grande portais da internet.
O receio é criticar e parecer uma velha, ultrapassada agarrada à sua Remington... Afinal, como disse Moniquinha, ter experiência hoje em dia virou sinônimo de ter “vícios”. Talvez eu não seja o target do novo Correio.

Ana Martha disse...

Bomfim,

Muito bom. Texto claro, sem rodeios. O tema dispensa comentários. Parabéns a todos pela iniciativa.

Teresinha disse...

Andava eu a procurar coisas importantes e interessantes sobre o opus dei e encontro estas barbaridades sobre um assunto que lhe é completamente desconhecido. Não seja ignorante em escrever sobre o que desconhece.
Saber escrever é uma ciência, exige conhecimento e pesquisa.
Lembre-se que o livro Código da Vinci é uma ficção.
Já alguma vez conheceu algum centro do opus dei?
Pode ir e depois publique a sua experiência.