quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Espetacularização pós-eleitoral

José Bomfim


Quem não sabia, na prática, o que é espetacularização da notícia está tendo aulas permanentes depois das eleições do primeiro turno em Salvador. Refiro-me à busca incessante pela imprensa, principalmente a do sul, do fenômeno Leo Kret.



Em se tratando de Câmara Municipal não entendo o porquê da ausência de pauta sobre a não-reeleição de figuras que nos últimos quatro anos foram os mandatários do Poder Legislativo da capital baiana.


A Mesa Diretora da Câmara Municipal de Salvador tem sete cargos. Desses, não foram reeleitos o presidente; o 1º vice-presidente; o 3º vice-presidente; o 2º e o 3º secretário. Além disso, a Câmara Municipal tem um ouvidor-geral e um corregedor-geral. A titular da Ouvidoria perdeu.


Então, dos nove principais cargos de direção do Poder Legislativo de Salvador, só três vereadores conseguiram vencer nas urnas. Seis foram reprovados pelos eleitores.

Uma pauta e tanto!


No entanto, a busca é pelo travesti eleito vereador. E as perguntas variam basicamente entre o tipo de calçado e o vestuário do futuro ou da futura edil. Como ocorre na espetacularização, a notícia vira simples entretenimento, uma brincadeirinha sem conseqüências.


Fico torcendo para que a sede dos coleguinhas pelo novo (?) seja aplacada e a bateria de pautas se voltem para o tsunami que atingiu a Casa do Povo. Quase 50% dos vereadores soçobraram, os principais dirigentes da Casa perderam o assento, alguns deles viraram cabos eleitorais messiânicos nos últimos dias, agarrando a esperança da reeleição do prefeito, que poderia chamar eleitos para cargos em órgãos ou secretarias e os suplentes ficarem com as vagas.

5 comentários:

Jadson disse...

É isso aí, Bomfim, Mônica, Jean Wyllys, é o tal do entretenimento, uma febre na nossa grande imprensa. Na verdade, uma opção política e ideológica.
Diz o professor espanhol Vicente Romano, em A Formação da Mentalidade Submissa: “Entreter significa compensar durante alguns momentos as debilidades e carências emotivas e sentimentais. O entretenimento apela aos déficits emocionais que todos temos de vez em quando. Disso vive esta indústria. Mas o objetivo último do entretenimento oferecido majoritariamente pelos atuais meios de comunicação não é o postulado ético da coexistência dos povos e das etnias, mas ganhar dinheiro com programas que exploram os instintos mais primitivos (sexo e violência)”.
No mais, espero, para seguir as companheiras Mônica e Joaninha, que Léo Kret possa levar a sério seu mandato, pensar na cidade e no povo. Mas, se isso acontecer – o que me parece difícil -, como ficam seus eleitores?

José Bomfim disse...

Ótimo, companheiro Jadson. Além da explicação teórica que só fez melhorar meu pretensioso artigo, seu comentário levantou uma ótima questão: e se o vereador travesti se tornar uma figura séria, como reagirão seus eleitores?

Carmela disse...

Para colocar mais um pouco de lenha nessa fogueira, faço o seguinte questionamento: Qual é mesmo o conceito de seriedade na política?

Tais Bichara disse...

"Então, dos nove principais cargos de direção do Poder Legislativo de Salvador, só três vereadores conseguiram vencer nas urnas. Seis foram reprovados pelos eleitores."

Uma pauta e tanto, mesmo. Afinal de contas, isso deve significar alguma coisa. Correto?

Mônica disse...

Corretíssimo, Tai.
Que tal vocês da Facom (e de outras faculdades também) estudarem esse fenômeno? Em tese, os integrantes da Mesa e líderes partidários deveriam se destacar numa eleição porque ficam mais tempo expostos na mídia, têm maiores chances de criar fatos políticos, falam por suas bancadas, orientam votações...Mas só em tese e o resultado da eleição é uma prova disso - até o presidente, que tem mídia garantida, não conseguiu transformar isso em voto.
Mas só se fala de Léo Kret. Por mais inusitada que tenha sido a eleição da dançarina, que a maioria ainda não sabe se chama de vereador ou vereadora, esse não foi o único recado ditado pelas urnas.