terça-feira, 18 de novembro de 2008

É o Superoutro, é Talento Demais


Josias Pires


Edgard Navarro


Só recentemente tive a oportunidade de assistir ao filme documentário "Talento Demais", do cineasta baiano Edgard Navarro, realizado em 1994 – fiquei maravilhado! Senti algo parecido quando vi "O Superoutro" – obra prima. São filmes que liberam, feitos com alta dose de energia desreprimida. Baiano, brasileiro, universal.



"Talento ..." traduz, com humor, amor e sagacidade uma história do cinema baiano, com texto irônico, descolado, bem informado, excelente pesquisa iconográfica ... um agradável encontro da turma ... Edgard parece fazer cinema como se fosse um brinquedo. E brinca, inclusive, com as interfaces entre a ficção e a realidade, realizando memorável encontro entre o Superoutro e Meteorango Kid, o Herói Intergalático, outro clássico udigrudi, marginal, de André Luiz Oliveira – um transe.


Edgard lança mão do documentário para revelar aspectos cruciais do seu próprio fazer cinematográfico. Documentário, mesmo o mais radical documentário, como autobiografia, para citar a frase certeira de Wladimir Carvalho, um dos mais significativos documentaristas do Brasil.



Edgard retoma o mito do herói cristão, trágico, transfigurado em Meteorango e que, em "Talento ...", não suportando a dor de fazer cinema na Bahia; no limite, recusa o sacrifício de encenar a sua própria cruz. Cristo na Bahia tem que pregar na praia, comenta José Anjo Umberto Negro.


Ora, ora, ora, vejamos melhor as coisas: na terra de todos os santos, a padroeira do cinema baiana é Yemanjá. É por aí que Navarro navega.



Este é um cinema que tem vocação para o mar, que tem uma das suas sedes no Alto da Sereia, acentua. E lembra que até os negativos do pioneiro Diomedes Gramacho para escaparem do fogo – deste inferno sem fim que liquidou milhares de metros de filmes – foram lançados ao mar, onde se reproduzem e são pescados por gente capaz, desde Alexandre Robatto. Saravá, saravá.


Ao reencenar 25 anos depois o ator de Meteorango, Lula Martins, encarnado na imagem de um Cristo em crise com o nosso cinema; ao fazer desta tomada o núcleo que catalisa todo filme; e ao valer-se de atores, arquivos, registro do próprio filme se fazendo, entrevistas, músicas, Edgard cria um poema audiovisual, cheio de leveza, repleto de uma alegria demolidora, tropicalista, com o qual passeamos sobre uma história que opõe o destino trágico-macunaímico do cineasta-baiano e a nossa aparente incapacidade de iluminar o cinema brasileiro. Aparência, apenas, lembra Edgard.


Saravá Glauber Rocha, saravá Walter da Silveira, saravá Alexandre Robatto e tantos outros. Como reitera Caetano Veloso, filme como O Superoutro é prova cabal da força do cinema feito na Bahia. É bem verdade que no pós-64 o poder local praticou uma apropriação indébita e mercantilizou aspectos cruciais da cultura da Cidade da Bahia. Mas há vários exemplos, como demonstra "Talento ..." de que a chama não se apagou.


"Talento ..." é um desses filmes que precisamos ver se queremos fazer cinema na Bahia. Um filme exuberante, vitalista, escrachado. Sobre cinema. E, portanto, sobre a vida, o sonho, a fantasia de fazedores de filmes. Olhares singulares sobre a cidade e seus personagens, suas histórias.


Major Cosme de Farias, outro mito. A imagem burlesca de Carlos Sampaio. O depoimento delicioso de Aldo Teixeira, que paquerava na rua Chile quando foi abordado pelo fotógrafo de "Barravento", Tony Rabatony. Sem nunca ter pisado no palco – como no neo-realismo italiano - foi transformado no ator do personagem Aran, antagonista de Antonio Pitanga no primeiro longa-metragem de Glauber.


Afeito à polêmica, irreverente, Edgar põe na tela o conflito entre arte, estado e mercado. Quer ganhar dinheiro? Vá para a publicidade e não fazer cinema! Diz o Superoutro ao herói crucificado. Esse sacrifício todo vale mesmo a pena? Vale a pena aprender a tirar leite de pedra? Ah! Se vale! Ora, pois foi a publicidade quem deu roupa e vida nova ao Superherói. Ah! Sim! Mas foi Navarro, que não se rendeu às facilidades da publicidade, quem fez O Superoutro e Talento Demais.


Será que o mercado é capaz de produzir obras de arte? Como o estado deve financiar a cultura? O que tem se posto no lugar do velho clientelismo – herdeiro do mecenato medieval – são os editais. Que na época de Talento era uma vã fantasia. Tudo estava lento demais. Havia na época um estado incapaz de realizar política cultural digna; cineastas faziam cinema por esforço pessoal – e isto era o que valia a pena.


Hoje os editais viraram a panacéia da política cultural. Há aspectos positivos nisto, claro. Mas há uma insuficiência aí que precisa ser enfrentada.


Fazer arte para além do abrigo do Estado, mas sem esquecer que o Estado tem a obrigação de abrigar, estimular, fomentar, ajudar a realizar a arte. Tem a obrigação de sustentar estruturas de conservação da memória, de estimulação criativa, de indução produtiva em direção aos caminhos necessários, que não são exatamente os caminhos apontados pelo mercado. E sem dirigismos autoritários. Cumprindo o seu papel.


Há uma incapacidade congênita do mercado fazer florescer obras de arte. Hollywood é indústria. Quem produz arte em Hollywood são diretores, atrizes, roteiristas e outros artistas. A equação mercado-estado–arte na Bahia está longe de ser bem encaminhada.


A essa altura o texto parece ter escapado do filme. E volto com o "Salve-se quem souber. Porque poder não poderemos mais", na sentença do músico filósofo Walter Smetack. Edgard sabe o que faz e revela aspectos da jornada de cineastas que conduzem a tocha pelo labirinto, iluminando a nossa inconsciência.



Edgard é um desses cineastas capazes de ver o novo nas camadas do tempo. Pois ninguém ouse duvidar que ele é o principal herdeiro baiano da erupção glauberiana. A mais radical expressão do cinema baiano dos últimos vinte anos.

4 comentários:

Mônica disse...

Finalmente, Josias, você resolveu dar o ar da graça! E trazendo à tona o "Rei do Cagaço", Edgard Navarro, o "Boca do inferno" da atualidade, como ele próprio se define.
Navarro sempre foi um desses gênios inquietos e excêntricos. Lembro bem dele liderando os protestos contra a censura ao filme "O Fim do Homem Cordial", de Daniel Lisboa, na Mostra de Vídeo Baiano (acho que o nome era esse), em 2005, p/q falava de ACM. A Fundação Cultural vetou e os cineastas protestaram invadindo o prédio. Um bafafá dos diabos que deu mais repercussão ao filme do que se tivesse sido exibido ou premiado. Parabéns pelo texto.

joana disse...

Concordo com você Mônica. A estréia de Josias vem enriquecer o nosso espaço com um texto super bom e o conhecimento amplo que ele tem na área cultural, em especial de cinema. Tanto é que escolheu começar falando sobre o excelente Edgard Navarro. Amei o "Superoutro" e gostaria de ver também o "Talento Demais", principalmente agora. Legal Josias. Muito bom!

Ernandes Santos disse...

Apenas uma lembrança sobre o "gênio compreendido" :
http://setarosblog.blogspot.com/2007/07/vanguarda-do-derrire.html

Mônica disse...

Bem lembrado, Ernandes. Eu tinha esquecido do episódio do Edgard mostrando a abundância pra Setaro. O texto de Franciel é muito bom e lembra que ele só repetiu a exibição do insuportável (concordo com o pai do Ingresia, é mesmo um palavrão) Gerald Thomas.
A dependência dos editais é mesmo uma realidade, mas não só do cinema baiano. Com exceção, claro, dos grandes nomes do cinema nacional que têm cacife pra bancar atores globais no elenco e atrair patrocínio, mídia e bilheteria. Infelizmente!
Por falar em cinema, ainda não consegui assistir Cascalho, de Tuna Espinheira, outro bom filme que também dependeu de edital para ser viabilizado.