quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tendência isolacionista do jornalismo impresso




Carmela Talento


Enquanto o jornalismo online se empenha cada dia mais para que o leitor interaja, participe, no jornalismo impresso esse relacionamento é sempre muito distante.


Talvez esteja nisso o desinteresse cada dia maior por esse tipo de veículo. Os leitores, principalmente os mais jovens, não querem receber apenas as informações, querem participar, questionar, sugerir, trocar idéias. A figura do jornalista sabe tudo vai ficando cada dia mais distante desse público.


Uma das poucas formas de participação no jornal impresso é o reduzido espaço que alguns jornais abrem para a publicação de cartas.

Até mesmo para falar com um repórter na redação é uma complicação. É muito difícil encontrar alguém que atende com satisfação uma ligação ou receba com alegria quem vai até a redação para levar uma informação.

Todos estão sempre muito ocupados. Aliás, se tem uma coisa que repórter detesta (salvo raras exceções) é quando alguém liga para a redação para contar alguma coisa.



A notícia que o cidadão pensa que é importante não tem o menor valor para o repórter que visualiza seu trabalho apenas na ótica da pauta designada pelo chefe da redação.
Responder e-mail nem pensar, as caixas ficam abarrotadas de mensagens, invariavelmente devolvidas.

No geral, muitos repórteres acham que cumprir a pauta é a coisa mais importante do seu dia. Querem se livrar logo da tarefa e se picar. Temem quem está do outro lado da linha, porque pode trazer uma informação que vai demandar uma apuração e, portanto, mais trabalho.


Como o jornalismo já de muito tempo deixou de ser sacerdócio e passou a ser uma atividade meramente burocrática, salvo raras e honrosas exceções, é melhor se livrar logo do inconveniente.

Sendo assim, quando se procura um repórter para passar alguma informação, este sempre vai tratando de encurtar o papo, colocando uma série de empecilhos ao que está sendo dito, pede para mandar por escrito ou, na melhor das hipóteses, manda que o cidadão ou cidadã procure um outro colega.

Alguns se desculpam dizendo que estão abafados, outros vão logo despachando o interlocutor de forma curta e grossa informando que o assunto não interessa ao jornal, isso quando atendem a ligação.

Com essa postura, vão se distanciando cada vez mais dos leitores, enquanto o jornalismo online vai cada dia mais estimulando a participação e a interação, aproveitando informações, fotos e vídeos produzidos pelo cidadão repórter. A tendência, portanto, é de cada vez mais o web-jornalismo ser feito com a participação popular, enquanto no impresso, os jornalistas continuarão em suas redomas, até a extinção desse produto que cada vez mais se distancia da cobertura do dia a dia da cidade, para ficar na periferia da notícia.

8 comentários:

Anônimo disse...

Não concordo. Melhor do que interagir on line é pegar o jornal papel lê-lo de cabo a rabo e depois utilizá-lo com outra finalidade. Vida longa para o jornalismo impresso!

Jadson disse...

Carmelita, você tocou num ponto crítico. Quem sabe a quantos anda a circulação de nossos jornais, a Tribuna, o novo Correio e A Tarde? E os quatro grandes jornalões do Sul? (ou do Sudeste?) Eles continuam perdendo leitores? Gostaria de ter acesso a estudos sérios sobre isso.

Mônica disse...

Com certeza Carmela também concorda com esse "vida longa ao jornalismo impresso".
Eu também gosto de vasculhar o jornal impresso, mas aprendi a interagir com o online. Claro que quanto mais abertura para a comunidade melhor. O Correio, por exemplo, levou um tempo sem a coluna de cartas do leitor e hoje publica apenas pequenos comentários, acho que feitos via site.
Quanto à pouca atenção que os repórteres dispensam aos telefonemas e visitas dos leitores, tem a ver com a correria da redação e a pressão histórica da categoria para dar conta de dois ou três empregos (fora freelas e outros bicos), única forma de pagar os compromissos no final do mês.

Carmela disse...

Caros amigos, por favor entendam que não estou querendo acabar com o jornal impresso, ao contrário, o que estou colocando em debate é essa necessidade de se enxergar além da pauta.

Ernandes Santos disse...

Entendo a preocupação de Carmela, mas acho que os jornais impressos não devam "competir" com os virtuais por meio da interação. Na verdade creio que os papiros devam tomar outro rumo que é o jornalismo investigativo, o aprofundamento e interpretação dos fatos (ou versões). O Correio optou pelo formato "site no papel", mas creio que irá cair em desgraça assim que os outros fizerem o mesmo e ele deixe de ser novidade. Se os jornais impressos tentarem acompanhar o ritmo frenético da internet, servirão apenas para embrulhar peixe.

Ernandes Santos disse...

Leiam a respeito:

http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI3341881-EI4802,00.html

Ivan disse...

Carmela, concordo com você quando diz que é preciso haver uma mudança na postura dos profissionais das redações. Infelizmente reciclam o papel, mas esquecem de reciclar os jornalistas. Poucas empresas têm essa preocupação. Talvez por isso o web jornalismo venha conquistando cada vez mais espaço. Interagir com a redação é interessante porque, para muitos leitores, o jornalista sabe tudo.
Vida longa ao jornalismo, independente do seu formato.

Clécio disse...

Carmela,
Você conseguiu focar problemas importanes em um texto relativamente curto. Concordo com tudo que você escreve, principalmente por ter vivido o corre-corre da redação. É verdade, para alguns jornalista o leitor é peça secundária em todo o processo da informação. Tanto é que o tratam om desdém e muita pressa na conversa. Quantas boas matérias deixam de ser feitas justamente por não se ter tempo para ouvir quem se dispôs a pegar um telefone e ligar para a redação?
Você acerta tamém quando diz que hoje o leitor quer interagir, emitir sua opinião. Coisa que ocorre nos veículos online e prticamente vem morrendo no jornalismo impresso.
Também concordo com os argumentos apresentaos por Ivan.
Agora, se alguém que tem poder de dcisão nos jornais impresso está preocupado com isso e tenha cá minhas dúvidas.