terça-feira, 30 de setembro de 2008

Manipulação deliberada da notícia

Jadson Oliveira
O Equador e seu jovem presidente Rafael Correa andaram ultimamente na mídia baiana (e brasileira e internacional), graças à multinacional (baiana, brasileira?) Odebrecht, acusada de falhas em obra executada para o governo equatoriano.

Os nossos jornais (A Tarde, Tribuna da Bahia e Correio) destacaram o calote que o governo do Equador daria a empréstimo tomado no BNDES (o brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o impedimento de dirigentes da empresa deixarem o país, um dos quais baiano.
As versões do governo do Equador estão lá dentro da matéria, mas o texto sublinha mais, claro, as versões da multinacional, que são realçadas mais ainda na edição – nos títulos, nas chamadas de primeira página, etc. (Se você tiver oportunidade de espiar os quatro jornalões do Rio e São Paulo, vai constatar que a notícia geralmente é a mesma).
Seria nacionalismo?, uma postura que na grande imprensa brasileira só surge quando está do outro lado interesses de países como Bolívia, Paraguai e agora Equador.
Seria a Odebrecht um exemplar de bom comportamento? Seria ela afinada com os interesses nacionais, particularmente com os interesses do povo brasileiro? E multinacionais têm pátria?
O papel das agências de notícia

Estou ampliando o assunto, desculpem a tentação. O importante neste blog Mídia Baiana é discutir como os três jornais baianos noticiam o fato.
Notem bem: o noticiário é o mesminho, o texto de modo geral é padronizado, varia só uma ênfase aqui e ali, no título, no destaque dado na página. (É pena que o leitor não leia mais de um jornal no dia para comparar).
Por que será? O jornalista sabe, por dever de ofício. Mas o leitor não sabe que há uma coisa chamada agência de notícia (ou agências). Os três jornais podem receber um só “telegrama”, um só texto, de uma agência de notícia. Às vezes há apenas aquela versão e, mesmo quando há versões de mais de uma agência, normalmente a visão é semelhante. É uma visão afinada, do ponto de vista político e ideológico, com a visão empresarial, das corporações econômicas e financeiras, bem semelhante à visão do dono do jornal, dos patrões. Ou seja, de quem realmente usufrui da famigerada liberdade de imprensa, da cantada em verso e prosa liberdade de expressão.
E o jornalista encarregado de editar a matéria, o editor?
Ele, na verdade (e aí é difícil para o leitor comum entender), não tem qualquer autonomia sobre aquele texto que vai editar. Não pode modificá-lo, pois a responsabilidade pela notícia é da agência; não tem poder de escolha, pois se houver mais de um “telegrama” de mais de uma agência, as versões serão naturalmente semelhantes; não pode jogar no cesto de lixo, pois seu jornal poderá sofrer um “furo” (não dar uma notícia que os outros dão), e no dia seguinte será interpelado pelo chefe ou pelo patrão; não pode inverter a ênfase que já está na estrutura da matéria para dar um título diferente, onde fique explicitado, por exemplo, a posição do governo do Equador; e, afinal, talvez não haja necessidade de tanta elocubração, pois, na maioria das vezes, a visão dos editores já está devidamente adequada à do editor-chefe ou do patrão. Então, não há qualquer trauma e viva o pensamento único.
O direito do leitor de ter acesso às diversas facetas da notícia é esquecido.
De onde vêm nossas convicções?
Por essa e outras é que o professor espanhol Vicente Romano, no livro A Formação da Mentalidade Submissa (estou traduzindo do espanhol, pois, apesar dele já ter trabalhado também no Brasil, não encontrei ainda uma edição brasileira), defende que as escolas deveriam ensinar como se vê televisão, como se ouve rádio e como se lê um jornal. Ele crê que deveria ser uma disciplina obrigatória em todas as escolas, já que é daí que vem a grande maioria das informações que as pessoas absorvem.
Claro que o livro de Romano tem uma abrangência muito maior, dissecando o processo pelo qual as pessoas formam suas opiniões, suas convicções. Fala do papel da educação escolar, da violência e do entretenimento.
Há um capítulo didático sobre a manipulação da informação. Aborda as técnicas (seleção, silenciamento, informações oficiais, pesquisas de opinião, censura e autocensura, personificação da política, linguagem como instrumento de manipulação).

Outra técnica identificada pelo professor espanhol é o que chama Mitos da Sociedade Ocidental, onde alinha: mito do individualismo e da decisão pessoal; mito da neutralidade; a natureza humana inalterável; a ausência de conflitos sociais; e o mito do pluralismo dos meios de comunicação.

4 comentários:

Mônica disse...

Fala Jadson, nosso correspondente para a América Latina e o Caribe. Que luxo! Brincadeiras à parte, é muito bom voltar a ler textos escritos por você.
Essa padronização do noticiário realmente desestimula a leitura. Não adianta ir buscar em outro jornal o complemento ou outra visão sobre o mesmo assunto. Com a internet essa busca até ficou mais fácil, mas nem sempre temos tempo de sair pesquisando vários assuntos para ter uma informação mais completa.
E esse caso do Equador com a Odebrecht é um exemplo perfeito. Aí tem.

Biaggio disse...

Compañero, estou aguardando sua prometida manifestação sobre a aliança PCdoB/DEM.

Mônica disse...

A Odebrecht aceitou as exigências impostas pelo governo equatoriano para continuar operando no país, ou seja pagar indenização de US$43 milhões pelos prejuízos decorrentes da paralisação da hidrelétrica, desde junho. Sinal de que embaixo desse angú tem caroço. Mas poucos questionam.

Mudando de assunto, vou pongar na provocação de Biaggio: bem que Jadson poderia analisar não só a aliança PCdoB/DEM, como também as do PT com o DEM, o PSDB e o PPS. Que tal, companheiro?

karlo brigante disse...

GRANDE NOVIDADE!!!! A IMPRENSA BRASILEIRA É PODRE!! LEIO APENAS UM JORNAL POR DIA, SABE PORQUÊ??? TODOS ESCREVEM SOBRE UM MESMO ASSUNTO E DE FORMA TENDENCIOSA!!! SÓ MUDAM AS MANCHETES!!!