domingo, 12 de outubro de 2008

Do silêncio das urnas, um sonoro protesto



Mônica Bichara






Perfeito o artigo de Jean Wyllys, "A vitória de Léo Kret e os gays", publicado na edição de sexta-feira (dia 10) do Correio.

Chega de chorar o leite derramado e praguejar contra a eleição (com quase 13 mil votos, é bom não esquecer) da dançarina pagodeira. Pouco importa, agora, saber se o mandato será do vereador Alecsandro Santos ou da vereadora Léo Kret do Brasil (de Kretina, como já assumiu), se vai usar o banheiro masculino ou feminino, se vai de paletó, tailleur, saia ou calça com o umbigo à mostra e sapato plataforma. Como disse Jean, o importante neste momento é interpretar o recado dos eleitores.


Do silêncio das urnas ecoou um sonoro protesto, que não pode ser ignorado.


O voto no personagem Léo Kret não revela a força do movimento gay, que não teve fôlego para eleger o presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, que mais uma vez nadou e morreu na praia. Ou Valquíria, outra legítima representante do segmento. Aí, sim, seria um voto consciente, ideológico. Mas não foi.

Os votos da dançarina vieram de todas as partes, inclusive de pessoas preconceituosas que jamais imaginaram que milhares de outros eleitores estavam se preparando para fazer a mesma coisa. Conheço alguns adolescentes, outros nem tanto, que diziam abertamente que votariam em Léo Kret para "esculhambar de vez". E quase caíram duros ao saber que ela estava eleita. E muito bem eleita, diga-se de passagem, com a quarta maior votação da Câmara. O pensamento deles era alguma coisa do tipo "já que os políticos só querem se armar, vamos bagunçar". E conseguiram.

Convenhamos que muitos políticos dão motivos de sobra para esse comportamento anárquico do eleitor.

Concordo com Jean quando diz que "os votos de Léo Kret são frutos da descrença de parte da população em relação aos políticos e do fascínio pelo entretenimento, sobretudo quando este inclui um personagem que desperta sentimento de atração-repulsa para com o que é exótico. E Léo Kret é entretenimento, Marcelo Cerqueira, não".

Jean, que é jornalista e professor baiano e nos encheu de orgulho quando colocou o Brasil inteiro a seu favor no BBB, pelas posições assumidas de forma clara, sem folclore ou fechação, põe o dedo na ferida ao comentar: "Se Léo Kret tivesse prometido leis que tornariam a homofobia crime... será que ela seria eleita? Duvido!". Eu também duvido. Afinal, o eleitor baiano ainda é conservador para esse tipo de coisa. E bote conservador nisso.

Também acho que o momento é de torcer para que Léo Kret entenda o significado da sua eleição e assuma uma postura não só de "bicha-louca", de circo, mas também de comprometimento com o povo de Salvador, sobretudo dos bairros periféricos que tanto a aplaudiram em seus shows, rebolando no mesmo compasso frenético do pagode.

Mais uma vez o jornalista acerta ao dizer que o movimento gay pode virar o jogo a seu favor, se souber ganhar a cumplicidade da nova vereadora (é assim que ela quer ser chamada). Léo Kret já surpreendeu ao declarar apoio a Pinheiro e não a João Henrique, como fez ACM, o Neto, "sonho de consumo" declarado da vereadora. Mostrou que pode, sim, ter brilho próprio. Com ou sem plumas e paetês.

6 comentários:

joana disse...

É isso aí Mônica. Vamos torcer para que a atuação de Léo Kret represente uma conquista para a nossa cidade, para a nossa população. Tudo bem que ela queira "fechar", vestir o que bem entender, agir como sempre e da forma como o eleitor a conheceu, mas o que importa é o compromisso político, a seriedade da atuação, a visão da cidade como um todo, a afirmação dos direitos das minorias e dos que sempre estiveram excluídos nas políticas públicas. Isso é o que realmente importa. Vamos torcer.

Socorro disse...

Falar me movimento gay, o que foi aquilo em São Paulo?

Mônica disse...

Pois é, Soc! De onde menos se espera é que vem a bomba. Logo a Marta, queimando o filme com uma asneira daquela. Por causa de uma frase estúpida e, acredito, impensada, pode ter jogado no lixo toda a bela história que construiu na luta contra a homofobia. Culpar o marqueteiro só não basta. Ela e toda a equipe vão ter que achar uma boa forma de pedir desculpas, assumir o erro e se retratar. Passado para isso ela tem, mas precisa agir rápido p/q o estrago já foi feito.
beijos

Max da Fonseca, disse...

Lastimável!

Tais Bichara disse...

"os votos de Léo Kret são frutos da descrença de parte da população em relação aos políticos e do fascínio pelo entretenimento, sobretudo quando este inclui um personagem que desperta sentimento de atração-repulsa para com o que é exótico."

disse tudo. esse tipo de coisa já está claro na televisão há muito tempo. mas de uns tempos pra cá, a política tem contado com exemplares dos melhores - entenda melhores como quiser.

Tais Bichara disse...

ah! e tomara que os votos de protesto de tanta gente, tenham uma função muito além da que esperavam quando votaram em léo kret.